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Monitorização bioacústica dos morcegos da Amazónia - A entrevista a Adrià López Baucells

Adrià López Baucells, segundo lugar no Prémio de Doutoramento em Ecologia 2019

Adrià López-Baucells esteve à conversa com a SPECO após ter sido galardoado com o segundo lugar no Prémio de Doutoramento em Ecologia Fundação Amadeu Dias 2019.

Adrià concluiu seu doutoramento na Universidade de Lisboa em Novembro de 2018. O seu estudo focou-se nos impactos a longo prazo da fragmentação das florestas em comunidades de morcegos insetívoros, através do uso de detectores autónomos de morcegos nas florestas da Amazónia (Brasil). Dedica-se principalmente à investigação e conservação de morcegos, e sua principal área de interesse é a exploração da 'paisagem sonora' para estudar e promover o uso sustentável da Terra e a conservação de morcegos em todo o mundo. Trabalha desde 2005  no Bat Research Group, Museu de Ciências Naturais de Granollers (Catalunha, Espanha). Desde então, colabora em vários projetos de telemetria, seleção de habitat, biogeografia, comportamento e migração, entre outros tópicos, que compõem a sua formação enquanto investigador na área da ecologia aplicada, cujos modelos de estudo são os morcegos. Em 2010, concluiu a sua licenciatura em Biologia na Universidade de Barcelona, ​​com um projeto final sobre morcegos neotropicais na Colômbia. Depois, saltou para Sydney (Austrália) para realizar a sua tese de mestrado em ecologia comportamental competitiva e fisiologia com raposas voadoras e, seguindo depois para o Brasil para dar início ao doutoramento. Mais recentemente, fez parte de várias expedições e projectos relacionados com morcegos no Reino Unido, norte da África, Quénia e Madagáscar. Paralelamente, tem-se mostrado bastante activo no ensino, particulamente a leccionar cursos de campo em Bornéu, Tailândia e Espanha. Atualmente, é consultor científico do acordo Eurobats (UNEP) da Espanha, participa em vários projetos internacionais relacionados com morcegos (por exemplo, projecto COST-Action Bats and Climate Change) e é editor-chefe do Journal of Bat Research & Conservation.

 

SPECO: Qual ou quais as perguntas que estiveram na base do seu projecto de doutoramento?

ALB: O objetivo geral desta tese foi estudar os efeitos da fragmentação da floresta nas comunidades de morcegos insetívoros aéreos. De todas formas, durante o inicio da tese tornou-se evidente que, para além de estudar os efeitos da fragmentação e da perda de habitat, era mesmo preciso desenvolver e acrescentar o conhecimento de história natural sobre esse grupo de morcegos na Amazónia, pelo facto de serem altamente desconhecidos e pouco estudados. Foi por isso que a tese ficou dividida, desde o início, em duas grandes partes bem diferenciadas: A) uma primeira parte descritiva que incluía a publicação de uma chave de campo em formato de livro para a espécies todas da Amazónia e o desenvolvimento de protocolos bioacústicos e sistemas de identificação de gravações semi-automáticos para a monitorazação de morcegos insetívoros aéreos, e B) uma segunda parte com carácter mais experimental da ecologia e conservação dos morcegos, sobre os efeitos a fragmentação do habitat e a perda de floresta primária desde um ponto de vista taxonómico, filogenético e funcional.

 

SPECO: Que resultados  deixaram mais satisfeito?

ALB: Para mim, um dos resultados claramente mais importantes da tese foi a publicação da primeira chave de campo para morcegos da Amazónia. O livro foi primeiro publicado em 2016 em formato digital pelo Instituto Nacional de Pesquisas Amazónicas (INPA) e reeditado em versão impressa pela Pelagic Publishing em 2018. Foi pensado como um guia para satisfazer as necessidades de quem realiza trabalho de campo com morcegos na Amazónia. É um livro baseado em chaves de identificação previamente publicadas, modificadas com base em descrições das espécies na literatura, mais com um enorme conteúdo baseado em observações pessoais. Inclui a primeira chave de identificação acústica de morcegos da Amazónia e é ilustrada com espectrogramas dos sons emitidos pela maior parte das espécies da região.

Esst livro representa um passo importante no sentido de facilitar a tarefa difícil de identificar as muitas espécies de morcegos insetívoros que ocorrem na Amazónia, com base na sua ecolocalização. No entanto, a escassez de bibliotecas de sons completas dificulta a utilização da bioacústica nos trópicos. E por esse motivo, o segundo resultado do que estou mais orgulhoso é o facto de termos optimizado os protocolos de identificação acústica através do uso de algoritmos de machine learning. Entre muitas outras coisas, esse estudo demostrou como se pode reduzir em até 75% a quantidade de pulsos que requerem validação manual, uma poupança significativa de esforço na análise deste tipo de dados!

O uso de detetores acústicos está a crescer rapidamente em todo o Mundo, e vai expandir-se no futuro próximo devido aos consoantes avanços tecnológicos. As análises semiautomáticas de vastas quantidades de ecolocalizações que apresentámos representam um progresso crítico para a Bioacústica na era atual do Big Data, pelo que considero que a tese representou um grande avanço para o estudo de morcegos nos trópicos e para o uso de métodos alternativos pioneiros como a bioacústica.

 

SPECO: Qual ou quais os principais desafios que enfrentou? Como conseguiu superá-los?

ALB: Desafios foram muitos, mas acabaram todos por ser sempre reduzidos pelas grandes alegrias e proezas que um doutoramento traz consigo. Morar 3 anos na Amazónia, debaixo de um telhado de metal sobre quatro colunas de madeira, passando as noites no meio da floresta sem muita luz, uma garrafinha de água e pouco mais que um colega e quatro mochilas cheias de material de pesquisa já é um desafio interessante. Se adicionarmos o facto de existirem jaguares na área de estudo, cobras e centenas de outros perigos desconhecidos, leva a que a história passe de um grande desafio a uma aventura iinesquecível. Faz com que te sintas como sempre imaginei os naturalistas do século passado... O trabalho foi desenvolvido na área do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, a maior experiência de manipulação do habitat de grande escala na Amazónia no mundo enteiro, que criou um mosaico de floresta primária contínua e de fragmentos de floresta primária de maneira experimental, inseridos numa matriz de vegetação secundária com cerca de 30 anos. Gerir esse tipo de dados para obter uma tese de doutoramento a altura do resto de trabalhos que foram desenvolvidos previamente no PDBFF foi também um enorme desafio, sobretudo tendo como base trabalhos tão excelentes como as teses doutorais do Dr. Christopher Meyer no Panamá e do Dr. Ricardo Rocha também no Brasil. Encontrar a "ponta da lança", fugir dos tópicos comuns e das perguntas repetitivas, e focalizar o meu trabalho em perguntas surpreendentes, atrevidas, arriscadas e interessantes foi um objectivo claro e forte desde os meus primeros passos como estudante de doutoramento.

No fim, a tese foi baseada em dados acústicos recolhidos durante três anos com detetores passivos de última geração, que resultou num total de mais de 1 millão de gravações analisadas. As análises desses dados foram claramente um desafio chave e importante que tive de solucionar durante o percurso da tese. Não posso então, passar a frente desta pergunta sem agradecer muito profundamente o apoio recebido por parte de colaboradores, colegas e outros cientistas que tornaram possível um projecto tão ambicioso como este, que tinha sido impossiível sem o seu contributo.

 

SPECO: O que ficou por explorar?

ALB: A pergunta devería ser... o que ficou bem explorado? Por explorar ficou mesmo todo... É a Amazónia. É a floresta mais diversa do planeta. E eu só consegui arranhar a superfície dos seus segredos. Acho que poderia viver lá cem vidas inteiras e só conseguiria perceber a pequena ponta do iceberg da biodiversidade que abriga e dos processos ecológicos que lá acontecem. A pergunta interessante para mim é: será que vamos conseguir conservar um ecosistema tão incrível no planeta por muito tempo? Temos já os dados necessários para convencer a sociedade da urgência da sua conservação? Ficaram tantas coisas ainda por descobrir e pesquisar que, mesmo sem olhar para trás, torna-se difícil decidir o caminho a seguir para frente.

 

SPECO: Quais serão os próximos passos enquanto investigador?

ALB: Actualmente estou contratado como investigador associado no Museu de História Natural de Granollers dentro do Departamento BiBIO (Biodiversity & Bioindicators), à frente de um grupo de investigação focado principalmente na conservação de morcegos. Em 2018 iniciámos vários projectos de conservação quer a nível local, quer internacional como, por exemplo, o recentemente aceite European Cost Action project: Bats and Climate Change, um projecto sobre comportamento e o uso do bat-lure com morcegos neotropicais na Guiana Francesa, e outros. O meu foco agora é trabalhar no ramo da ecologia aplicada, especialmente com a conectividade da paisagem, os corredores verdes e o controlo de pragas agrícolas com estratégias verdes e sustentáveis.

De todas formas, o próximo passo após o doutoramento foi sempre tentar construir desde a base um grupo de investigação diverso, dinâmico, activo e compacto, que tenha todo aquilo que eu aprendi e valorize positivamente da minha experiência previa na academia, fugindo sempre das falhas que tenho vivido durante esse tempo no mundo científico, e que ficam cada vez mais evidentes num contexto de crise económica.

A verdade é que desde o fim do doutoramento não me posso queixar, está a correr todo na linha prevista, o grupo está crescer de maneira bem progressiva, e cada vez aparecem mais oportunidades para participar em projetos de pesquisa e conservação com morcegos e outros grupos faunísticos, sobretudo seguindo uma tendência interdisciplinar.

 

SPECO: O que a levou a concorrer ao Prémio?

ALB: Concorrer a prémios, concursos e reconhecimentos é sempre uma mais-valia que pode ajudar imenso a melhorar o CV, ampliar a divulgação dos resultados da tese, e favorecer o intercâmbio de informações entre investigadores. Mesmo sabendo que a competição é enorme e que há uma grande quantidade de projectos excelentes em Portugal, acho que se tem sempre due tentar chegar um passo mais a frente e conseguir aquilo que parece impossível. E foi mesmo isso o que me levou a concorrer ao prémio.

 

SPECO: Que impacto espera que o Prémio tenha na sua carreira e no seu trabalho?

ALB: Confio que o reconhecimento do Prémio me vai ajudar a melhorar o meu CV professional como investigador e me vai a facilitar e ampliar a minha rede de contactos com cientistas e pesquisadores em Portugal e também no exterior para futuros projetos.

 

SPECO: O que tem a dizer sobre a investigação em Ecologia em Portugal?

ALB: A nível geral a investigação em Ecologia em Portugal destaca-se, em geral, pela sua excelência e desenvolvimento. Sem entrar em generalizações e opiniões pouco fundadas sobre o percurso da ciência e a Ecologia em Portugal em termos de financiamento (o que, com certeza, é um tópico bem complexo e controverso), a investigação em Ecologia em Portugal, com o projecto em que estive inserido (PTDC/BIA-BIC/111184/2009, financiado pela FCT), junto com a seguinte bolsa de doutoramento (PD/BD/52597/2014) ofereceu-me uma oportunidade única que me permitiu construir um base muito sólida e resistente, sobre a qual posso construir o meu futuro como biólogo profissional. E mais do que isso, concedeu-me a oportunidade de viver uma experiência incrível no habitat mais diverso do planeta, com um dos maiores projetos de conservação e fragmentação florestal e uma equipa excelente que me acompanhou o tempo todo, e que vai a ficar gravado na memória.

 

 

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