Os efeitos do trânsito automóvel na saúde humana

Os efeitos do trânsito automóvel na saúde humana

De uma coisa Bénédicte Jacquemin tem a certeza: a poluição do ar na Europa só se resolve se se reduzirem os carros nas cidades.

A investigadora belga e mexicana do Instituto Nacional da Saúde e Investigação Médica, em França, vai estar amanhã no 15.º Congresso da Federação Europeia de Ecologia, em Lisboa, a falar de poluição atmosférica, das suas causas e da investigação que desenvolve. “A poluição é perigosa para a saúde e precisamos de fazer lobby para a combater”, disse ao PÚBLICO sobre a mensagem que transmitirá. “A maioria das pessoas só pensa que a poluição atmosférica é prejudicial para os pulmões, mas é para a maioria dos órgãos.” A partir de hoje até sexta-feira, vários cientistas portugueses e estrangeiros juntam-se a ela neste congresso na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, organizado pela Sociedade Portuguesa de Ecologia, e de que o PÚBLICO é media partner, tendo como mote “A Incorporação da Ecologia nos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável” da ONU para 2030. 

 
PÚBLICO - Investiga os efeitos da poluição atmosférica na saúde. Quais são os principais efeitos da poluição atmosférica na nossa saúde hoje?

Em geral, a poluição atmosférica tem dois tipos de efeitos: os de curto prazo e os de longa duração. Os de curto prazo acontecem quando há grandes exposições à poluição atmosférica durante alguns dias. Por exemplo, ocorre quando há mais poluição atmosférica devido a razões climáticas a nível local. Isto aumenta a mortalidade, as doenças cardiovasculares, a tosse e agrava as doenças respiratórias. Depois, há a exposição crónica à poluição atmosférica, em que a pessoa está exposta a ela durante vários anos. Os seus efeitos principais são uma maior mortalidade, mais doenças cardiovasculares e respiratórias, envelhecimento da pele ou doenças do sistema endócrino — como a diabetes — e cancro. Aliás, a poluição atmosférica foi classificada em 2014 pela Agência Internacional de Investigação do Cancro como um agente cancerígeno.

 
PÚBLICO - Pode então dizer-se que há uma relação directa entre a poluição atmosférica e o cancro?

É difícil perceber que percentagem do cancro está associada à poluição atmosférica. Estudo a forma como uma longa exposição à poluição atmosférica está ligada ao aumento de cancro e, até agora, pode dizer-se que o cancro do pulmão está associado a uma maior exposição à poluição do ar. Há outras provas, que precisam de ser confirmadas, relativamente [à relação do] cancro da mama e do tracto urinário [com a poluição do ar].

 
PÚBLICO - Tem estudado a contribuição da poluição atmosférica na saúde reprodutiva. De que forma afecta a fertilidade?

O meu trabalho está a decorrer e ainda não tenho resultados. Estou a trabalhar num projecto sobre qualidade do esperma e a poluição atmosférica. Já há estudos que sugerem que esta poluição pode afectar a qualidade do esperma. Contudo, as provas não são conclusivas.

 
PÚBLICO - Em Maio, publicou um artigo em que concluiu que a exposição à poluição do ar por metais está associada a um grande risco de mortalidade. O que nos mostrou esse estudo?

O principal objectivo foi perceber se a medição de metais pesados em musgos podia ser usada para estimar a poluição atmosférica numa população nas áreas rurais em França. Para isso, analisámos essa população e as medições regulares da poluição atmosférica por metais em musgos feitas pelo Museu Nacional de História Natural de França. Depois, classificámos os metais que sabíamos que tinham uma fonte antropogénica, que estão associados a uma maior mortalidade, e os que tinham uma fonte natural. Por fim, correlacionámos isso e, se classificássemos todos os participantes de 0 (menos expostos) a 100 (mais expostos), uma pessoa que tivesse uma classificação de 75 poderia ter mais 10% de risco de morrer do que uma pessoa com 25. Sabíamos que a poluição do ar está associada a efeitos negativos, mas este estudo ajuda-nos a perceber quais são as componentes da poluição do ar que são mais perigosas. Vamos fazer o mesmo estudo em centros urbanos como Paris, Lyon ou Marselha.

 

beneicte jacquemin leonard

 

PÚBLICO - Considera que ainda há poucos estudos sobre a poluição do ar?

Há muitos estudos sobre a poluição atmosférica. Aliás, sabemos que é perigosa, porque temos provas cientíFIcas sólidas. Temos é de continuar a investigar para perceber o mecanismo pelo qual a poluição atmosférica nos afecta e quem está mais susceptível. Também precisamos de continuar a investigar como é que a poluição do ar interage com outros problemas ambientais ligados à cidade, como o barulho, a falta de espaços verdes ou as luzes à noite.

 
PÚBLICO - Quais são as principais causas da poluição do ar hoje em dia?

Na Europa, a maior fonte da poluição atmosférica é o trânsito automóvel e a actividade ligada ao transporte entre os aeroportos e portos. A Organização Mundial da Saúde e a Agência Europeia do Ambiente estimaram que a poluição atmosférica cause cerca de 500 mil mortes prematuras [por ano] na Europa. Contudo, em Março alguns investigadores estimaram que poderão ser 800 mil. Já em países como a China e a Índia, os transportes têm um grande contributo, mas também há o contributo da indústria. A Índia e a China estão entre os países com a pior situação relativamente à poluição do ar. Há ainda algumas cidades na América Latina, como Santiago, no Chile, com grandes problemas de poluição atmosférica, sobretudo por causa dos transportes.

 
PÚBLICO - Como pode então minimizar-se a poluição atmosférica?

A Europa deve reduzir o trânsito automóvel. Uma cidade sem carros parecerá utópica, mas seria a solução. Deve-se aumentar os transportes públicos, promover o uso de bicicletas e fazer percursos pedestres. Mas não podemos pedir às pessoas para não irem de carro para casa se não lhes dermos essa solução. As principais soluções têm de vir dos governos: têm de dar às pessoas a possibilidade de usarem menos o carro e mais outros tipos de transportes. Na China, também se deveria reduzir os carros, mas dever-se-ia sobretudo controlar melhor as emissões da indústria.

 
PÚBLICO - Falando na poluição dos carros, qual foi o contributo do “dieselgate” para essa poluição [a Volkswagen usou software ilegal para manipular emissões de óxidos de azoto, por isso os veículos emitiam até 40 vezes mais desses óxidos do que nos testes]?

Na Europa, nos anos 80, a maioria dos efeitos da poluição do ar na saúde estava ligada ao dióxido de azoto. Quando o diesel se tornou mais conhecido, houve um grande lobby da indústria dos carros, que dizia que era melhor para a economia e para a saúde porque emitia menos dióxido de azoto. Mas no final dos anos 80 e no início dos anos 90, cada vez mais estudos mostravam que as partículas Ænas [que entram na circulação e podem resultar de óxidos de azoto] eram até mais perigosas para a saúde. Pouco a pouco, a mentalidade foi mudando e começou a haver mais inspecções para as emissões de partículas finas dos carros a diesel. Na verdade, a história do “dieselgate” mostrou-nos que o diesel emitia mais dióxido de azoto do que se pensava. Mas a poluição atmosférica é uma mistura de várias coisas e o dióxido de azoto é só um dos gases encontrados.

 
PÚBLICO - Quantas mortes estão atribuídas ao “dieselgate”? Um estudo diz que foram quase 38 mil mortes em 2015.

Não sei se se pode fazer uma correspondência científica directa, porque as provas que temos são das partículas finas e não apenas do dióxido de azoto. Os milhões de mortes anuais atribuídas à poluição do ar estão ligados às partículas finas e não só ao dióxido de azoto.

 
PÚBLICO - Prevê um futuro ainda com mais poluição atmosférica?

Não necessariamente. Há cidades europeias que estão a reunir esforços para diminuir a poluição do ar. Nos últimos dez anos, houve, em geral, uma redução dessa poluição na Europa. Quanto à China e à Índia, é difícil de dizer porque são economias em crescimento.

 

 

Fonte: Público - https://www.publico.pt/2019/07/29/ciencia/entrevista/cidade-carros-parecera-utopica-solucao-poluicao-ar-1881382

Artigo de Teresa Sofia Serafim.