×

Aviso

com_content.article: Field=text
youtu.be urls are disabled

A COVID-19 e os Morcegos - Perguntas e Respostas

Enquanto ainda se discute que animal ou espécie transmitiu o SARS-CoV2, importa revisitar o papel dos morcegos e a sua peculiaridade do ponto de vista biológico e ecológico.
Ciente do seu papel informativo e consciente da diversidade de cientistas portugueses que trabalham sobre o assunto, a SPECO contactou alguns que, amavelmente, anuíram em contribuir para esta divulgação.

Este texto baseou-se no texto produzido pelo Bat Conservation Trust, disponível em https://www.bats.org.uk/about-bats/bats-and-disease/covid-19-and-bats; a adaptação foi elaborada por um grupo de especialistas portugueses de morcegos*.

As informações fornecidas abaixo são baseadas na informação científica disponível à data (última atualização a 21/05/2020). Este texto será revisto regularmente e atualizado à medida que houver novas informações.

Este texto não inclui questões sobre o impacto na saúde humana da doença COVID-19. Para isso, deve consultar a autoridade de saúde nacional (https://covid19.min-saude.pt/).

Se tiver alguma questão pode escrever para Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar..

 

Os morcegos são importantes para nós?

Sim, os morcegos têm um papel muito importante no equilíbrio dos ecossistemas e na nossa economia.

Por exemplo, os morcegos de Portugal alimentam-se quase exclusivamente de insetos e quando em atividade, consomem por noite cerca de metade do seu próprio peso em insetos, o que equivale a muitas toneladas por ano. Alguns desses insetos são pragas de culturas agrícolas e de espécies florestais, pelo que os morcegos acabam por nos fornecer gratuitamente um serviço de enorme valor económico.
Um pouco por todo o mundo, os morcegos alimentam-se também de insetos vetores de doenças, como mosquitos, salvando assim um incontável número de vidas humanas anualmente; ao controlar as suas populações contribuem para diminuir a prevalência destas doenças em humanos.

Noutros continentes, os morcegos que se alimentam de fruta são importantes para a dispersão de sementes, participando na reflorestação natural com muitas espécies com interesse económico.

Muitos outros exemplos podiam ser dados, desde os morcegos que se alimentam de néctar e são importantes na polinização de algumas plantas, passando pelo uso do guano (fezes dos morcegos) como fertilizante natural, até a avanços na medicina (por exemplo, novos medicamentos para o tratamento de AVC, que ainda é a principal causa de morte em Portugal).

 

Morcego rato grande Myotis myotis Marta Borges II

 Fotografia de Marta Borges

 

SOBRE A DOENÇA COVID-19

 

O que é um coronavírus?

Os coronavírus são uma família de vírus que inclui um elevado número de vírus.

A maioria dos quais não são prejudiciais e em que apenas um pequeno número causa doenças respiratórias agudas (por exemplo, o SARS-CoV-2, o vírus que causa a doença COVID-19).

A título de exemplo, as infeções vulgarmente designadas como constipações, têm muitas vezes origem num coronavírus específico dos humanos.

 

De onde vem a doença COVID-19?

Ainda não se sabe com certeza a origem da COVID-19. Sabe-se que é uma zoonose, isto é, uma doença humana com origem noutro animal, mas ainda não está confirmada qual é a fonte animal do vírus SARS-CoV-2 que esteve na origem pandemia de COVID-19.

É possível que o antepassado do SARS-CoV-2 tenha tido origem numa espécie de morcego, que entretanto passou para os humanos através de um outro intermediário (tem sido sugerido o pangolim), ou que sofreu mutações dentro dos humanos que permitiram a transmissão entre pessoas e, consequentemente, causar a doença.

Esta é uma área prioritária para a pesquisa, mas é importante entender que a transmissão subsequente da doença COVID-19 entre humanos é, de acordo com a informação atualmente conhecida, de pessoa para pessoa.

Foi a transmissão entre pessoas que dispersou a doença a nível global.

 

Será verdade tudo o que se ouve e se lê? 

Existe muita desinformação a circular sobre a pandemia COVID-19.

É realmente importante que as pessoas verifiquem os factos por trás das histórias que leêm na comunicação social e nas redes sociais.
Devem confiar apenas em instituições oficiais fidedignas, como as autoridades da saúde e do ambiente.

  

Foram os morcegos que causaram a pandemia de COVID-19?

Não, esta pandemia foi causada por humanos.

Atividades humanas, como as acima referidas (destruição de habitats naturais pela desflorestação, ocupação das áreas desflorestadas com pecuária, mercados de animais selvagens vivos), levam a alterações nos ecossistemas que aumentam o risco de surgimento de zoonoses (doenças causadas pela transmissão de um agente patogénico de um animal para um humano).

OS MORCEGOS COMO TRANSMISSORES DE DOENÇAS

 

 Os morcegos da minha casa têm COVID-19?/ Posso apanhar COVID-19 dos morcegos da minha casa? 

Não, o vírus que causa a doença COVID-19 não foi isolado de nenhuma das mais de 1400 espécies de morcegos que são conhecidas no mundo.

De onde surge então esta associação?

Na Ásia foi detetado um coronavírus com 96% do seu genoma em comum com o SARS-CoV-2 numa única espécie de morcego (Rhinolophus affinis).

Embora esta semelhança possa, à primeira vista, parecer significativa, a título de exemplo os humanos partilham 96% do genoma com os chimpanzés, o suficiente para que que sejam espécies distintas. 

É importante destacar que nesta pandemia são os humanos que transmitem a doença COVID-19 a outros humanos, não são os morcegos ou outros animais.

 

Como é que a doença COVID-19 passou de animais selvagens para humanos?

Ainda não se tem a certeza como ocorreu este contágio.

O contágio zoonótico é a transmissão de um agente patogénico de um vertebrado para um humano, frequentemente através de uma espécie intermediária. Para que haja esta transmissão, os agentes zoonóticos têm de ultrapassar uma série de barreiras.

As alterações que os humanos têm causado aos ecossistemas podem quebrar ou remover algumas das barreiras entre espécies e facilitar a transferência de agentes patogénicos entre animais selvagens e a nossa espécie.

Um exemplo é a destruição de habitats naturais pela desflorestação e a utilização das áreas desflorestadas para pecuária.

Este processo origina um maior contacto entre vida selvagem, animais domésticos e seres humanos, proporcionando oportunidades para eventos de transferência de vírus entre espécies e para o Homem.

O comércio de animais selvagens vivos, em que diferentes espécies partilham o mesmo espaço em mercados, pode também criar condições para este tipo de transferências entre espécies.

Parecem ser particularmente arriscadas situações em que os animais comercializados são confinados em condições de elevado stress, pouca higiene e com espécies diferentes em grande proximidade, frequentemente abatidas no local.

Muitas das espécies comercializadas nestas condições não seriam encontradas com esta proximidade na natureza. Este tipo de mercado aumenta a probabilidade de um vírus passar de uma espécie para outra, e inclusive para humanos.

O PAPEL DOS MORCEGOS NO ECOSSISTEMA

  

O abate de morcegos pode parar esta doença?

Não, abater morcegos não irá controlar a pandemia de COVID-19 nem irá impedir o surgimento de outras zoonoses no futuro.

De facto, foram as atividades humanas que originaram esta pandemia, e será através da mudança do comportamento humano em relação à vida selvagem e aos seus habitats que se poderá prevenir futuras pandemias.

Para tal devemos, por exemplo, tentar limitar a destruição das florestas, particularmente nos trópicos, e limitar o tráfico e de forma progressiva regulamentar o comércio de animais selvagens. 

Existem mais de 1400 espécies de morcegos no mundo, das quais 27 ocorrem em Portugal (25 no continente e duas apenas nas Regiões Autónomas).

Muitas coexistiram e partilharam os mesmos locais que o Homem, quando este utilizava as cavernas como locais de abrigo, atualmente continuam a adaptar-se a viver perto dos humanos, em ambientes urbanos e rurais, como jardins, parques, e até fazendo colónias perto de casas, sem qualquer prejuízo para as pessoas.

Há muitas espécies de morcegos ameaçadas que carecem de medidas ativas de conservação.
Em Portugal (e na União Europeia) todas as espécies de morcegos estão protegidas por lei, sendo necessárias mais medidas a nível global para garantir a sua sobrevivência.

O abate de morcegos, para além de não ter qualquer efeito em termos da propagação da COVID-19, iria afetar negativamente a conservação dessas espécies.

Poria também em causa os importantes benefícios que os morcegos trazem aos humanos, nomeadamente no controle de pragas agrícolas e de insetos vetores de doenças e na polinização e dispersão de sementes, que em todo o Mundo valem milhares de milhões de euros anualmente.

Os morcegos são hospedeiros de mais doenças que outros animais?

Não, os morcegos não são hospedeiros de mais vírus potencialmente causadores de doenças zoonóticas que outros grupos de mamíferos e aves com diversidade de espécies semelhante.

Existem mais de 1400 espécies de morcegos conhecidas no mundo, sendo o segundo maior grupo de mamíferos em número de espécies, representando um quarto da diversidade de mamíferos do mundo.

Tal como outros grupos animais, os morcegos são considerados “reservatórios” (hospedeiros de longo prazo) de uma série de vírus, mas a grande maioria destes não são prejudiciais e não são transmissíveis a humanos.

 

 



  

Para saber mais vejam esta entrevista de um dos investigadores que adaptou o texto apresentado: https://sicnoticias.pt/programas/a-ciencia-e-a-pandemia/2020-05-07-Covid-19-Medo-dos-morcegos--Assustador-seria-o-Mundo-sem-morcegos

*Grupo de especialistas portugueses que adaptou o texto*: Luísa Rodrigues (ICNF), Ana Rainho (FCUL), Bruno Silva (MED), Carla Goulart Silva (DRA-Açores), Francisco Amorim (CIBIO), Domingos Patacho, Helena Raposeira (CIBIO), Hugo Rebelo (CIBIO), Jorge Palmeirim (FCUL), Margarida Augusto (UL; FPE), Mª João Silva (CCVAlviela), Milene Matos (BioLiving), Nuno Cidraes-Vieira (CEAE-LPN; STRIX), Paula Robalo (CCVAlviela), Paulo Barros (UTAD), Pedro Alves (FPE; Plecotus), Pedro Horta (CIBIO), Ricardo Rocha (CIBIO), Sandra Faria (UTAD), Sílvia Barreiro (Ecofield), Sofia Lourenço, Tiago Marques (UE), Vanessa Mata (CIBIO), Virgínia Duro (UTAD).

 

 

Sobre estas questões, os Secretariados da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migradoras Pertencentes à Fauna Selvagem, do Acordo sobre Conservação de Populações de Morcegos Europeus (EUROBATS) e do Acordo para a Conservação das Aves Aquáticas Migratórias Africo-Euroasiáticas emitiram um comunicado com factos sobre morcegos e a doença COVID-19