A importância das simbioses de limpeza num oceano em mudança - A entrevista a José Ricardo Paula

A SPECO falou com José Ricardo Paula, primeiro galardoado no Prémio de Doutoramento em Ecologia Fundação Amadeus Dias 2020. José Ricardo Paula é actualmente investigador auxiliar no MARE (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente) na Universidade de Lisboa.


J. R. Paula é licenciado em Biologia Evolutiva e do Desenvolvimento e mestre em Biologia da Conservação pela Universidade de Lisboa. Foi também na Faculdade de Ciências (FCUL) que iniciou o seu doutoramento, no Laboratório Marítimo da Guia/FCUL do MARE .

O seu doutoramento, que concluiu com distinção e louvor, foi realizado em estreita cooperação com a  Lizard Island Research Station, situada na Austrália. Esta cooperação iniciou-se no âmbito do projecto MUTUALCHANGE financiado pela FCT, que lhe permitiu realizar a sua investigação na Lizard Island Research Station. A sua dissertação de mestrado no grupo Integrative Behavioural Biology do ISPA- Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida, liderado pelo Professor Rui Oliveira, também lhe permitiu realizar a sua investigação no Oceanário de Lisboa.


Esta cooperação foi aprofundada ao longo do doutoramento, pois além de colaborar com esta estaçãoo de investigação, José Ricardo conseguiu captar financiamento internacional competitivo galardoado pela Lizard Island Reef Research Foundation, a Lizard Island Doctoral Fellowship 2018, que lhe  assegurou um trabalho de campo de excelência na Lizard Island. José Ricardo  obteve também financiamento extra de uma instituição sem fins lucrativos,The Company of Biologists que lhe permitiu realizar trabalho de campo na ilha de Moorea, na Polinésia Francesa, em cooperação com a Universidade de Uppsala, na Suécia.

O apreço deste investigador pela comunicação de ciência levou-o a participar em diversos eventos de divulgação científica, como a participação no PubhD e na organização do primeiro Pint of Science em Portugal.

José Ricardo Paula é autor/co-autor de 31 publicações e realizou 38 apresentações orais (9 por convite) em conferências e seminários científicos.

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SPECO: Qual ou quais as perguntas que estiveram na base do seu projecto de doutoramento?

JRP: O principal objectivo do meu projecto de doutoramento foi compreender como os mutualismos de limpeza entre os peixes limpadores (que comem os parasitas e pele morta de outros peixes “clientes”) e os seus "clientes" respondem a condições futuras projectadas de aquecimento e acidificação dos oceanos. Mais especificamente, respondendo às seguintes questões:
1) Será que o comportamento cooperativo de limpeza é afectado pelos factores de aquecimento e acidificação? Se sim, quais os mecanismos neurobiológicos envolvidos? Existe algum potencial para adaptação?
2) Será que os parasitas são resilientes a estes factores? Qual o impacto dos parasitas na fisiologia dos "clientes" em condições futuras? Como são controlados os parasitas num oceano do futuro?

 

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SPECO: Que resultados o deixaram mais satisfeito?

JRP: Num projecto tão diverso que incluiu áreas como ecologia, comportamento animal, neurobiologia, evolução, fisiologia, parasitologia, é complicado escolher um resultado mais satisfatório. Dois capítulos deram-me especial prazer, o que avalia o potencial adaptativo dos impactos no comportamento dos peixes limpadores e o que analisa um cenário futuro em que peixes clientes não têm acesso a peixes limpadores mais têm que lidar com parasitas. Ambos exigiram criatividade no design experimental e contaram com colaboração de equipas internacionais. Aliás, isto é característica sempre presente ao longo do projecto, o facto de envolver várias equipas internacionais.

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SPECO: Qual ou quais os principais desafios que enfrentou? Como conseguiu superá-los?

JRP: Sem dúvida que pode soar paradisíaco fazer trabalho de campo em ilhas isoladas no meio do recife de coral. Porém, o isolamento não torna o trabalho mais fácil. Sempre exigiu muito planeamento em várias vertentes: tempo, materiais e custos. Contar com uma semana extra quando se passam 3 meses isolados caso algo corra mal é uma boa regra, porque quase sempre algo corre mal, seja não puder mergulhar porque fiz um corte profundo, ou porque um ciclone está a aproximar-se da ilha. Isto exigiu muita criatividade para resolver problemas e adaptar materiais. Numa primeira missão à ilha Lizard Island na Grande Barreira de Coral Australiana falharam todas as câmeras de respirometria (que servem para medir o metabolismo dos peixes) feitas por medida em Portugal e que tinha levado comigo. Rapidamente tive que ir à oficina e construir umas eu mesmo, com restos de acrílico que estavam espalhados pela estação de investigação, apenas para saber que o medidor de oxigénio era gravemente afectado pelas variações na corrente elétrica causadas pelos painéis solares e gerador a diesel da estação… Por sorte lá havia um UPS da sala de informática que resolvia o problema. Ninguém usou os computadores da estação durante umas semanas, mas resolveu-se o problema.

                                                

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SPECO: O que ficou por explorar?

JRP: Cada trabalho abre sempre enumeras questões. Gostaria, por exemplo, de tentar perceber quais os mecanismos (neurogenómicos) que permitiram alguns peixes serem tolerantes à acidificação. Ou se as populações que vivem em recifes naturalmente acidificados (perto de vulcões submarinos) estão adaptadas. Existem, também, por explorar outros factores de stress ligados às alterações climáticas, como a hipóxia e a alteração drástica de habitat resultante das ondas de calor (que levam ao branqueamento de corais).

 

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SPECO: Quais serão os próximos passos enquanto investigador?

JRP: Neste momento estou a concorrer a uma Marie Curie para o Hawaii Institute of Marine Biology, num projecto que mistura cognição e ecologia

 

SPECO: O que o levou a concorrer ao Prémio?

JRP: Acho que o prémio é uma óptima iniciativa para valorizar o trabalho de jovens doutores em Ecologia em Portugal. A SPECO é uma sociedade de reconhecido mérito em Portugal e não podia deixar passar a oportunidade de concorrer.

 

SPECO: Que impacto espera que o Prémio tenha na sua carreira e no seu trabalho?

JRP: É sem dúvida fascinante (e ainda me custa acreditar) receber este prémio. Acho que me pode ajudar a abrir as portas em concursos futuros a financiamentos ou a posições.

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SPECO: O que tem a dizer sobre a investigação em Ecologia em Portugal?

JRP: Está bem e recomenda-se! É obvio que a sociedade reconhece o papel dos Ecólogos no nosso país e o nosso trabalho é reconhecido mundialmente. Todas as equipas com que vim a estabelecer colaborações conhecem a ciência portuguesa, o que leva a crer que estamos a fazer um bom trabalho.

 

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