Poças Rochosas intertidais como modelo de cadeias tróficas - A entrevista a Vanessa Mendonça

A SPECO conversou com Vanessa Mendonça, galardoada com o segundo lugar no Prémio de Doutoramento em Ecologia Fundação Amadeu Dias 2020. Vanessa Mendonça é, actualmente, investigadora do MARE - Centro de Ciências Marinhas e Ambientais, na Universidade de Lisboa.

V. Mendonça licenciou-se em Biologia em 2010 pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e concluiu o mestrado em Ecologia Marinha na Universidade de Lisboa em 2010.

Iniciou, no MARE, o seu caminho na investigação, como aluna de doutoramento em Biologia Marinha. Obteve o grau de Doutora em 2019, com distinção e louvor.
Durante o seu percurso académico participou em cinco projectos de investigação, publicou 32 artigos científicos, com 317 citações, tendo alcançado já um factor de impacto de h=10.
A sua investigação permitiu a Vanessa viajar e realizar expedições científicas de longa duração em diferentes eco-regiões do mundo, desde o Canadá ao Reino Unido, Portugal, Ilha da Madeira, Moçambique e Brasil.
Em todo o seu percurso adquiriu capacidades de recolha e identificação de espécies marinhas, desenvolveu conhecimentos sobre taxonomia de organismos costeiros, realizou ensaios experimentais térmicos e ecotoxicológicos, tirou partido dos isótopos estáveis para analisar redes alimentares complexas.

 

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Qual ou quais as perguntas que estiveram na base do seu projecto de doutoramento?


VM: A minha tese de doutoramento teve como ponto de partida a necessidade de encontrar um sistema de pequenas dimensões que pudesse ser usado como modelo para o estudo das redes alimentares. Foram selecionadas as poças de maré e partir delas quisemos perceber quais os ecossistemas mais vulneráveis à perda de espécies, temperados ou tropicais, quais as consequências para a estrutura da rede alimentar quando são removidas espécies vulneráveis ao aquecimento climático, e averiguar a existência ou não de variação sazonal na estrutura das redes alimentares em ecossistemas temperados. No fundo, compreender qual a importância que as poças de maré têm como local de alimentação para peixes juvenis.

 

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Que resultados a deixaram mais satisfeita?


VM: O resultado que me deixou mais satisfeita foi concluir que as redes alimentares das poças de maré compartilham características organizacionais fundamentais com as redes alimentares de ecossistemas maiores o que abre caminho para que estes locais possam ser usados como modelos para a compreensão dos processos universais que regulam a complexa organização das redes alimentares. Foi igualmente importante verificar a vulnerabilidade dos ecossistemas tropicais e realçar a importância de usar dados desses ecossistemas quando queremos definir padrões universais.

 

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Qual ou quais os principais desafios que enfrentou? Como conseguiu superá-los?


VM: Um dos principais desafios foi compilar a vasta rede de dados que foi tratada neste doutoramento, pois foram recolhidos dados em vários locais do mundo, o que engloba muitas espécies diferentes e que geram imensas redes tróficas para serem analisadas. Outro desafio foi o facto de alguns dos trabalhos desta tese terem sido desenvolvidos no Brasil o que implica deslocações e ausências de casa prolongadas.

 

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O que ficou por explorar?


VM: Este trabalho mostrou o grande potencial das poças de maré para serem usadas como ecossistema modelo para estudos de redes tróficas marinhas e é esse aspeto que deve ser explorado. Os estudos de estrutura de redes alimentares tem-se expandido bastante nos últimos anos e há muitos trabalhos que se podem fazer cruzando a ecologia e a estrutura e dinâmica das redes. Por exemplo, devido à sua estrutura contida poderíamos usar as poças como laboratórios naturais para manipulação experimental dos componentes da teia e das variáveis abióticas.

 

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Quais serão os próximos passos enquanto investigadora?


VM: Por agora estou a trabalhar como investigadora contratada num outro projeto, também ligado à ecologia marinha e aguardo os resultados das candidaturas aos projetos como PI (Investigadora Principal) e ao contrato de investigadora, o que me possibilitará continuar a explorar estas questões que ficaram por esclarecer e muitas outras que a Ecologia nos desperta.

 
O que o levou a concorrer ao Prémio?


VM: Concorri a este prémio por incentivo da minha orientadora Prof. Dr. Catarina Vinagre e porque achei que seria uma boa oportunidade para divulgar o meu trabalho e as descobertas científicas que dele obtivemos.

 

Que impacto espera que o Prémio tenha na sua carreira e no seu trabalho?


VM: Este prémio é bastante importante porque é uma forma de dar a conhecer, junto da comunidade científica e da sociedade em geral, não só o meu trabalho mas o de toda a equipa que nele participou. É também para mim uma forma de incentivo para continuar a fazer bem o meu trabalho e sendo este prémio um reconhecimento pela Sociedade Portuguesa de Ecologia é algo que valoriza o meu currículo e que espero venha a ter um impacto positivo a nível profissional.

 

O que tem a dizer sobre a investigação em Ecologia em Portugal?


VM: A investigação em Portugal está bastante dependente do financiamento da FCT que a meu ver não é suficiente para financiar todas as boas equipas de investigação que Portugal tem. Temos boas equipas a trabalhar em Ecologia com provas dadas, temos excelentes centros de investigação reconhecidos internacionalmente, mas depois temos uma política para a ciência que não é suficiente e acho que o futuro tem que passar por uma alteração ao reconhecimento do trabalho dos investigadores e um maior investimento na ciência.

 

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