Das aranhas como bioindicadores, à Produção sustentável - A entrevista a Jacinto Benhadi-Marín

Jacinto Benhadi Marín esteve à conversa com a SPECO após ter sido galardoado com o terceiro lugar ao Prémio de Doutoramento em Ecologia Fundação Amadeu Dias 2020. Jacinto Benhadi Marín é actualmente investigador no Centro de Investigação de Montanha (CIMO) do Instituto Politécnico de Bragança (IPB).

 

Durante a sua licenciatura em Biologia, J. Benhadi Marín participou activamente em diversos projecto da Universidade de León, Espanha. Num período de nove anos foi: gestor da biblioteca da “Asociación española de Entomología", colaborador científico em diversos projectos da Universidade na qual estudava, ofereceu suporte técnico especialista da ordem Aranea à Universidade da Extremadura.

Jacinto obteve o seu doutoramento em Biociências, com especialização em Ecologia na Universidade de Coimbra, no Centre for Functional Ecology (CFE). A sua investigação é focada na área das ciências biológicas aplicadas e ciências agrárias. Desenvolve trabalhos nas áreas de ecologia funcional e distribuição de aranhas na Península Ibérica, estuda as comunidades de aranhas associadas aos agroecossistemas e o seu potencial como agentes de limitação natural de pragas associadas a culturas.
Tem grande experiência em identificação de espécies de artrópodes com potencial de bioindicadores em agroecossistemas e em etologia de aranhas agrobiontes.
É especialista em criação e manutenção de populações de aranhas em laboratório, no estudo das respostas funcionais de aranhas e no efeito de alimentos não presa no fitness destes invertebrados.

 

Qual ou quais as perguntas que estiveram na base do seu projecto de doutoramento?

JBM: Num mundo globalizado, com uma elevada pressão para a produção de alimentos, os problemas derivados da intensificação em agricultura, nomeadamente o uso excessivo de pesticidas, fertilizantes e outros fatores de produção que levam à degradação do solo, dos recursos biológicos e degradação dos agroecossistemas, tornam de uma importância vital o desenvolvimento e aplicação de sistemas de produção sustentáveis. Neste âmbito, a produção integrada e a agricultura biológica visam maximizar a produção, mantendo um certo equilíbrio biológico no agroecossistema e minimizando o impacto ecológico. O uso de inimigos naturais como alternativa aos pesticidas em algumas situações tem-se mostrado eficiente e sem impacto negativo no meio ambiente. Um exemplo disso é a utilização de parasitóides contra algumas pragas agrícolas. Outros grupos de organismos potencialmente benéficos ainda estão pouco estudados, como é o caso das aranhas na sua qualidade de predadoras generalistas nos agroecossistemas. Dada a sua distribuição e abundância, e os resultados promissores até ao momento, tanto em investigação básica quanto aplicada, são aspectos encorajadores para a sua utilização, apesar de haver ainda muito a fazer para o desenvolvimento e implementação de métodos de controle biológico baseados em aranhas. Na Península Ibérica, como hotspot de biodiversidade e em Portugal em particular, pela importância da olivicultura, este agroecossistema é um cenário perfeito para estudar a eficiência de diferentes grupos de aranhas como inimigos naturais.

 

JBMnotcia1 

 

Que resultados o deixaram mais satisfeito?

JBM: Um resultado surpreendente foi a elevada diversidade de aranhas do olival transmontano tanto em termos de riqueza de espécies como de grupos funcionais (diferentes estratégias de caça), o que faz das aranhas um grupo muito promissor em relação à sua acção global como agentes de luta biológica. Por outro lado, ensaios de laboratório permitiram constatar a acção de diferentes alimentos não presa fornecidos naturalmente pelo ecossistema, nomeadamente pólen, néctar e leveduras, e que são extremamente benéficos para a condição física das aranhas. Os resultados obtidos serviram também de base para a produção de ferramentas e desenvolvimento de um pacote estatístico para simulação de testes de resposta funcional em laboratório bem como a produção de um modelo interactivo que pode ser usado nas salas de aula em diferentes ambientes educacionais.

 

JBMnotcia5 

 

Qual ou quais os principais desafios que enfrentou? Como conseguiu superá-los?

JBM: Criar e manter espécimes de aranhas saudáveis em laboratório foi um desafio logístico. Como predadores, cada espécime teve de ser mantida individualmente, não tendo sido possível a criação em massa. Além do cuidado com as aranhas, foi necessário manter culturas paralelas das diferentes espécies de presas, de forma a alimentar as aranhas necessárias à realização dos diferentes ensaios. As dificuldades decorrentes desta situação foram frequentemente resolvidas por meio de aprendizagem por tentativa e erro e muita persistência. A introdução às linguagens de programação e técnicas de análise de dados foi também um grande desafio. Para o ultrapassar, para além dos cursos clássicos utilizei cursos online e tutoriais já que, actualmente, a política de código aberto disponibiliza um grande número de opções.

 

 JBMnotcia3

 

O que ficou por explorar?

JBM: Numa tese de doutoramento ficam sempre muitas coisas por explorar. No meu caso, as mais relevantes têm a ver com a especificidade da mosca-da-azeitona (Bactrocera olea) pelo hospedeiro, sendo necessário alargar parte dos testes usando esta presa como modelo. Para isso, alguns modelos baseados estão ainda em desenvolvimento.

 

 JBMnotcia4

 

Quais serão os próximos passos enquanto investigador?

JBM: Além de continuar a trabalhar na área da luta biológica contra pragas em agroecossistemas, estou, neste momento, também interessado no desenvolvimento de modelos de nicho ecológico e na avaliação das alterações climáticas na distribuição das espécies. Actualmente, como investigador de pós-doutoramento no Centro de Investigação de Montanha (Instituto Politécnico de Bragança), e em parceria com o nosso grupo de investigação, estou a desenvolver modelos de previsão do avanço da psila-africana-dos-citrinos, Trioza erytraea, recentemente introduzida na Península Ibérica, um dos vectores do agente causal da doença “citrus greening” nos citrinos.

 

O que o levou a concorrer ao Prémio?

JBM: O reconhecimento externo do trabalho desenvolvido é sempre gratificante, principalmente por uma instituição de grande prestígio, como é a SPECO, e com uma área de actuação afim ao meu trabalho. Também me pareceu uma boa forma de divulgar o trabalho desenvolvido ao longo do doutoramento.

 

Que impacto espera que o Prémio tenha na sua carreira e no seu trabalho?

JBM: Sendo a SPECO uma Instituição com forte implantação a nível nacional e reconhecimento internacional, considero ser um aspecto de grande relevância para mim. Actualmente, o peso de cada linha do C.V. é extremamente importante, não se limitando ao número, por exemplo, de artigos publicados. Certamente, a concessão de um prémio com esta relevância a nível nacional, é uma vantagem no campo profissional.

 

O que tem a dizer sobre a investigação em Ecologia em Portugal?

JBM: Portugal reúne um conjunto de universidades, politécnicos e centros de investigação de referência em todas as áreas da ecologia (marinha, terrestre, básica, aplicada, etc.), com equipas de envergadura internacional. A formação e incorporação de jovens investigadores, bem como a consolidação de equipas, dependem inteiramente de financiamento público e/ou privado. Neste sentido, de acordo com a minha experiência pessoal, Portugal não está mal posicionado, mas ainda é necessário desenvolver uma consciência social global da extrema necessidade de investigação nesta área.

 

 JBMnotcia2