Gorongosa: As mulheres por trás do (re)sucesso

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Larissa Sousa e o Girls Club. Foto de Bruce Buttery/CNN

Como está a Gorongosa a prosperar após uma guerra. E qual o papel importante das mulheres neste regresso?

 

Não é à toa que uma das soluções para a luta na emergência climática destacadas no projecto Drawdown seja a educação, principalmente a educação de mulheres jovens. 

Encontrar soluções que melhorem a educação das jovens mulheres (mais especificamente, garantir o acesso escolar durante 12-13 anos, o suficiente para as jovens atingirem o ensino secundário) e melhorar o acesso a cuidados de saúde reprodutiva e recursos de planeamento familiar é essencial para que se atinjam os valores das Nações Unidas de redução do crescimento de população. Soluções que melhorem a vida de mulheres e raparigas, têm o potencial de reduzir os gases com efeito estufa em mais de 100 giga toneladas até 2050 (que é, aproximadamente, equivalente à poluição mundial de gases com efeito estufa causada pela queima de combustíveis fósseis e pela indústria em três anos).

Isto porque, a educação das raparigas traz benefícios ao país, contribuindo para o crescimento económico, pois atingirão melhores oportunidades de emprego e com isso melhores salários. Também, o melhor planeamento familiar e mais educação trará a diminuição dos casamentos infantis, o número de nascimentos e da mortalidade de mulheres e bebés. Mulheres mais educadas farão escolhas mais conscientes com mais benefícios. Um dos exemplos é o controlo e liderança da gestão dos campos de cultivo que se tornam mais produtivos, trazendo benefícios a nível da segurança alimentar para si e para as suas famílias.

 

"Educar as mulheres e raparigas é criar mundo onde todas as mulheres tenham acesso a oportunidades para serem líderes de referência e agentes de mudanças positivas, capazes de contribuir para o desenvolvimento político, social, económico e cultural do seu país."

 

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Girls Clube Foto de © Parque Nacional da Gorongosa, Sofala, Moçambique

O artigo da CNN "The women behind the comeback: How one of Africa's national parks is thriving after war" dá o exemplo prático do papel pioneiro das mulheres moçambicanas que levam à letra o ditado "Ao educarmos as mulheres, educamos uma nação".

Num país que tem cerca 58% de analfabetismo entre as mulheres, na Gorongosa criou-se o programa "Girls Club" que, introduzido nas aldeias que rodeiam o Parque Nacional da Gorongoza, oferece às raparigas, entre os 10 e os 16 anos, de famílias mais pobres aulas e lições suplementares que as incentivam e encorajam a não deixarem a escola para se casarem. Um grande passo para a quebra do ciclo de pobreza, pois como já foi mencionado, acabando o ensino secundário, as suas perspectivas de vida mudam para melhor. A coordenadora do programa, Larissa Sousa, afirma ainda que "Se a Mãe tiver maior nível de educação, vai querer garantir que os seus filhos e filhas também tenham acesso à educação"

Além da leitura, escrita e matemática, a educação sexual e reprodutiva, a conservação e o ensinamento do papel da mulher na sociedade também entram no currículo, tal como a diversão. Como usualmente, as raparigas é que tomam o papel de cuidadoras dos membros da família e da casa (e.g. cozinhar, ir buscar água) no Girls Club, a brincadeira e a diversão é parte fulcral, ensinando que, no meio de todas as responsabilidades, elas têm também direito a um momento para si no qual apenas se divertem.

 

  O testemunho e a missão de Dominique Gonçalves

Quando Dominique Gonçalves contou às jovens, membros do Girls Club, do seu trabalho como gestora do Projecto de Ecologia dos Elefantes do Parque criado por si em 2018, estas reagiram com deslumbramento.


O projecto consiste na monitorização da crescente população de elefantes na Gorongosa, devido aos esforços que permitiram reduzir a caça furtiva.

Os elefantes são uma espécie-chave no ecossistema da Gorongosa funcionando como “gestores do ecossistema”. Ao cortarem árvores e alimentarem-se de erva mantém a paisagem aberta e limpa, permitindo a entrada e estabelecimento de outras espécies. São essenciais na estrutura e na dinâmica do ecossistema no qual estão inseridos.

A população de 200 elefantes que sobreviveram à guerra, é agora de 800 devido aos esforços de conservação. Uma das grandes prioridades é a promoção da coexistência entre estes grandes mamíferos e os humanos das comunidades que rodeiam o parque onde, por vezes, os elefantes deambulam, invadindo as suas plantações. O conflito existe, mas a ecóloga está optimista quanto à possibilidade de uma coexistência pacífica.

Dominique Gonçalves é uma ecóloga dedicada à conservação, mais especificamente à gestão e conservação de sistemas (e.g. populacionais) e ecossistemas dedicada ao estudo de elefantes e fascinada por esta espécie de extraordinária complexidade comportamental e inteligência.

Para ela, os esforços de conservação TÊM, de incluir as comunidades locais. É importante para a conservação duradoura do ecossistema e dos animais que nele habitam.
Aqui entra o importante papel do trabalho que está a ser desenvolvido com o Girls Club.

O feedback que têm tido é muito positivo: muitas das raparigas que participam no programa querem vir a participar em programas de conservação. Muitas querem ser cientistas e trabalhar com leões elefantes e outros animais da Gorongosa.

 

 A primeira guia de Safari da Gorongosa

 

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Gabriela Curtiz Foto de Bruce Buttery/CNN

  Gabriela Curtiz é o exemplo de como o papel das mulheres é essencial na recuperação e sustentabilidade da Gorongosa

Gabriela cresceu com os seus 4 irmãos e a sua mãe a 96 quilómetros do parque. Era uma criança durante a guerra civil, mas sendo a sua mãe Professora, sempre incutiu e instigou o gosto da educação nos seus filhos. Quando Gabriela, no seu último ano do secundário, visitou o parque ficou decidida sobre o que gostaria de ser no futuro e agora é a primeira mulher na história do parque da Gorongosa a tornar-se guia de Safari.

Gabriela lembra-se de ouvir, ao crescer, que apenas os rapazes poderiam ser o que quisessem, e agora é a prova viva para outras raparigas que elas também podem ser o que quiserem. Actualmente, 4 dos 13 guias do parque são mulheres. Gabriela quer continuar a ser um modelo a seguir, inspirando cada vez mais  raparigas jovens.

 

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Fontes:

https://edition.cnn.com/travel/article/inside-africa-gorongosa-national-park-spc-intl

https://en.unesco.org/news/women-build-better-lives-mozambique-through-education

https://www.climatecouncil.org.au/women-and-girls-a-positive-force-for-climate-action/

https://data.unicef.org/topic/gender/gender-disparities-in-education/

www.girlmove.org/

 

Texto e Adaptação de Inês Reis dos Santos com revisão de Maria Amélia Martins-Loução