Os efeitos do trânsito automóvel na saúde humana

Os efeitos do trânsito automóvel na saúde humana

De uma coisa Bénédicte Jacquemin tem a certeza: a poluição do ar na Europa só se resolve se se reduzirem os carros nas cidades.

A investigadora belga e mexicana do Instituto Nacional da Saúde e Investigação Médica, em França, vai estar amanhã no 15.º Congresso da Federação Europeia de Ecologia, em Lisboa, a falar de poluição atmosférica, das suas causas e da investigação que desenvolve. “A poluição é perigosa para a saúde e precisamos de fazer lobby para a combater”, disse ao PÚBLICO sobre a mensagem que transmitirá. “A maioria das pessoas só pensa que a poluição atmosférica é prejudicial para os pulmões, mas é para a maioria dos órgãos.” A partir de hoje até sexta-feira, vários cientistas portugueses e estrangeiros juntam-se a ela neste congresso na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, organizado pela Sociedade Portuguesa de Ecologia, e de que o PÚBLICO é media partner, tendo como mote “A Incorporação da Ecologia nos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável” da ONU para 2030. 

Os jovens pedem uma educação que responda aos desafios do nosso tempo

A ligação entre a sustentabilidade e a educação

Escolas com lagos e jardins com os seus próprios problemas ambientais podem criar uma geração menos apática aos riscos das alterações climáticas, defende o investigador holandês Arjen Wals, que alerta para os riscos do “ecototalitarismo”.

Em entrevista à agência Lusa em Lisboa, à margem do 15.º Congresso da Federação Ecológica Europeia, que começou nesta segunda-feira em Lisboa, o professor da Universidade de Wageningen e titular da cadeira de Aprendizagem Social e Desenvolvimento Sustentável da UNESCO afirmou que é preciso “agir para sair de uma economia e uma educação que serve a economia, que só serve para estimular o desenvolvimento, o crescimento e a inovação para aumentar o lucro de accionistas”.

A Ecologia e os Ecólogos

O papel da Ecologia e dos ecólogos no século XXI

A definição do conceito de ecologia deve-se ao investigador e ilustrador alemão Ernst Haeckel que morreu há, precisamente, 100 anos. Por ecologia entende-se o estudo de todas as complexas interrelações entre organismos e o meio envolvente, incluindo, em sentido lato, todas as condições necessárias à sobrevivência. Durante o século XX a ecologia cresceu como ramo da biologia mas, a partir da década de 60, o seu impacto foi maior pelo crescimento e desenvolvimento económico do pós-guerra. Desabrocharam, nessa altura, dois grupos: um, influenciado por Rachel Carson e Barry Commoner, apostados em denunciar o impacte negativo do Homem no ambiente, e outro, mais científico e profundo, liderado por Eugene Odum e Paul Ehrlich, que incluíam nos seus estudos o Homem como outra espécie da natureza. O seu objectivo era estudar e interpretar cientificamente as respostas dos organismos às diferentes condições que afectam o seu desenvolvimento. O primeiro deu origem ao movimento ecologista, com uma forte implantação social e política. O segundo, mais introspectivo, aos ecólogos, enquanto profissionais que se fundamentam em dados recolhidos segundo o método científico.

O valor da biodiversidade

Segundo Maria Amélia Martins-Loução, Presidente da SPECO, a "Biodiversidade pode referir-se a qualquer nível de variabilidade existente entre seres vivos, incluindo a diversidade genética dentro da mesma espécie, em espécies diferentes e ecossistemas.".

Há 27 anos, as Nações Unidas propuseram 22 de Maio como Dia da Biodiversidade, para homenagear a data de aprovação do texto final da Convenção da Diversidade Biológica. Mas falar em diversidade da vida é demasiado lato: sobre que tipo ou sistemas vivos se pretende chamar a atenção? Como se expressa e qual o valor? Para muitos, biodiversidade e natureza são sinónimos. Paisagens com diferentes tons de verde e castanhos, salpicada de flores e algumas aves a sobrevoar transmitem um sentimento de beleza, subjectivo e pessoal, que apenas se interioriza quando desaparece ou se modifica.

A arte de saber esquecer

"Importa não esquecer que a chamada crise ambiental não é apenas uma questão ecológica e dos ecólogos, mas também, e sobretudo, um problema social e de saúde pública." disse Maria Amélia Martins-Loução, Presidente da SPECO, ao Público.

Saber esquecer é uma arte que se cultiva, hoje em dia, na sociedade portuguesa. Esquecemos a ameaça de seca quando a chuva teima em cair. Esquecemos (ou ignoramos) que houve matas incólumes em 2017, porque nem se visitam. O esquecimento (ou indiferença) é natural perante o dia-a-dia que se leva, mas também porque a classe política nos ajuda a esquecer. Nada como cultivar a esperança de um “grande” aeroporto e do aumento de investimento estrangeiro no lítio ou o orgulho de mostrar uma agricultura moderna no Alentejo. À esperança e ao orgulho alia-se a afirmação do poder restaurador, que neutraliza os efeitos negativos da memória e da culpa. Assim, para que a consciência se liberte e o povo descanse cultivam-se e afirmam-se a prossecução de medidas de mitigação.

A “nossa” casa está a arder

Segundo Maria Amélia Martins-Loução, Presidente da SPECO, "as presentes propostas de “desenvolvimento” para o estuário do Tejo e do Sado são apenas alguns exemplos em como os interesses económicos e políticos atropelam a salvaguarda de zonas húmidas com estatuto de protecção.".

Sustentabilidade é, actualmente, um vocábulo “politicamente correcto” e o seu uso é generalizado, na sociedade, como sinónimo de comportamento comedido de consumo. Palavras vãs e vazias quando as acções não se coadunam com o que se apregoa. A sustentabilidade é uma característica dos sistemas naturais, onde as leis da natureza asseguram os fluxos de energia e matéria entre os diferentes compartimentos: solo, organismos vivos e atmosfera num ciclo harmonioso e equilibrado. A biodiversidade presente oferece elevada resiliência pelo estabelecimento de ligações e parcerias entre indivíduos da mesma espécie e de espécies diferentes, assegurando uma diversidade funcional sustentável. Mas a sustentabilidade dos sistemas naturais não é alcançada, apenas, por uma maior diversidade. Mais biodiversidade sem interacções entre organismos, antes com espécies oportunistas e competitivas, origina sistemas fragilizados pouco ou nada sustentáveis. A dificuldade está, pois, em saber gerir ecossistemas, sem conhecer ou ignorando as leis da natureza, mas com o objectivo de os preservar para que continuem a prestar serviços de que os seres humanos dependem, como a qualidade da água, do ar, a regulação climática, entre outros.

As leis da natureza e a sustentabilidade

Para Maria Amélia Martins-Loução, Presidente da SPECO, "As presentes propostas de “desenvolvimento” para o estuário do Tejo e do Sado são apenas alguns exemplos em como os interesses económicos e políticos atropelam a salvaguarda de zonas húmidas com estatuto de protecção."

"Sustentabilidade é, actualmente, um vocábulo “politicamente correcto” e o seu uso é generalizado, na sociedade, como sinónimo de comportamento comedido de consumo. Palavras vãs e vazias quando as acções não se coadunam com o que se apregoa. A sustentabilidade é uma característica dos sistemas naturais, onde as leis da natureza asseguram os fluxos de energia e matéria entre os diferentes compartimentos: solo, organismos vivos e atmosfera num ciclo harmonioso e equilibrado. A biodiversidade presente oferece elevada resiliência pelo estabelecimento de ligações e parcerias entre indivíduos da mesma espécie e de espécies diferentes, assegurando uma diversidade funcional sustentável. Mas a sustentabilidade dos sistemas naturais não é alcançada, apenas, por uma maior diversidade. Mais biodiversidade sem interacções entre organismos, antes com espécies oportunistas e competitivas, origina sistemas fragilizados pouco ou nada sustentáveis. A dificuldade está, pois, em saber gerir ecossistemas, sem conhecer ou ignorando as leis da natureza, mas com o objectivo de os preservar para que continuem a prestar serviços de que os seres humanos dependem, como a qualidade da água, do ar, a regulação climática, entre outros.

A tragédia da biosfera

"Está muito claro que o nosso futuro comum depende do modo como a sociedade interioriza este problema de redução das emissões como sendo de todos.

Em Dezembro de 1968, num trabalho editado na revista Science, o ecólogo Garret Hardin afirmou que o livre acesso de um recurso pelo povo leva à ruína do planeta. Esta metáfora, intitulada “Tragédia dos Comuns”, simboliza o relacionamento estrutural dos indivíduos que colectivamente desperdiçam um recurso ao subutilizá-lo. A sociedade usa e explora os recursos em seu benefício, como se o planeta fosse infinito. Este polémico ensaio de Hardin vem a propósito dos consecutivos alertas sobre os riscos que a Humanidade corre perante o cenário do aumento de temperatura acima de um limiar, fixado em 2°C. A última cimeira do clima em Katowice, Polónia, foi pródiga em nomear ameaças que as alterações climáticas produzem na biosfera e terminou com um “livro de regras comuns”, em que os países se comprometeram a reduzir a emissão de Gases com Efeito de Estufa (GEE). Esperemos que este comprometimento seja mais eficaz do que a assinatura do Acordo de Paris em 2015. Infelizmente, estas boas intenções não têm resultado já que, ao contrário do que era suposto, a quantidade de emissões aumentou nos últimos anos. No entanto, uma grande diferença entre a parábola de Hardin e a redução das emissões é o facto de este ser um problema climático global em que os indivíduos são as diferentes nações. Está muito claro que o nosso futuro comum depende do modo como a sociedade interioriza este problema de redução das emissões como sendo de todos, o que implica acções colectivas e envolvimento dos países a nível mundial.